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O Brasil perde Carlos Nelson Coutinho

José Reinaldo Marques

27/9/2012

A morte do filósofo Carlos Nelson Coutinho, professor da UFRJ e um dos pensadores políticos marxistas mais respeitados do Brasil, está sendo considerada uma grande perda, pois abre uma lacuna em um dos mais importantes ciclos da produção intelectual brasileira sobre o estudo da política e do marxismo, que ajudou a difundir no País com a estimável colaboração do também filósofo Leandro Konder.

 

 

Coutinho alcançou reconhecimento internacional como um dos maiores especialistas no pensamento do filósofo húngaro György Lukács e do italiano Antonio Gramsci. Sobre este último, foi responsável pela tradução, coordenação e edição da obra no Brasil, a exemplo de “Cadernos do cárcere” (Civilização Brasileira, 1999-2002).  

 

 

O filósofo também é autor de vários livros considerados fundamentais para os estudos de teoria política, entre os quais “Gramsci, um estudo sobre seu pensamento político e “A Democracia como valor universal”. Além disso, sua tradução de “O capital” de Karl Marx é muito elogiada.

 

 

Devido ao grande legado que Coutinho deixou para o Brasil nos campos da filosofia, política e serviço social, sua morte teve grande repercussão nos meios acadêmico e intelectual do Brasil. Em nota, o Reitor da UFRJ, Carlos Levi, disse que Coutinho foi “um dos nomes de maior destaque na história da UFRJ e um dos principais pensadores do Brasil. Gramsciano de referência nacional e internacional, seu trabalho ajudou a formar pesquisadores e pensadores marcados pelo traço crítico essencial para a Universidade e para a mudança social”.

 

 

Levi falou ainda sobre o prazer de conferir a Carlos Nelson Coutinho, recentemente, o título de Professor Emérito da UFRJ, “numa cerimônia onde se via nos olhos de estudantes, professores, funcionários, políticos e amigos o carinho e o respeito que tinham por esse grande pensador. Presto minha solidariedade e pesar à família e amigos”.

 

 

Coutinho foi professor da Escola de Serviço Social da UFRJ, chefiada pela professora Mavi Pacheco Rodrigues, cuja formação teve forte influência do filósofo:

— Fui formada por ele, toda uma geração de pesquisadores da área de Serviço Social, que hoje são reconhecidos, foi formada por Carlos Nelson Coutinho. Ele extrapolava o serviço social, era nosso Gramsci brasileiro e foi um dos pioneiros na divulgação da obra de Lukács no Brasil, a partir dos anos 60, disse Mavi Rodrigues.

 

 

Em todos os meios de comunicação do País registrou-se uma enorme manifestação de apreço e respeito pela memória de Carlos Nelson Coutinho. Cristina e Leandro Konder prestaram uma homenagem ao amigo e companheiro, de muitas lutas políticas e relevantes trabalhos no campo acadêmico, num artigo publicado no JB Online, no qual afirmam que “a morte do filósofo Carlos Nelson Coutinho nos desfia a um reexame das relações de um marxismo aberto, fundado em Gramsci e Lukács, com as complexas relações exigidas pela situação do campo socialista”.

 

 

Cristina e Leandro Konder ressaltam que a atuação e a contribuição filosófica e política de Coutinho têm duas vertentes. De um lado, “temos um movimento tenso na história das ideias sociais, uma proposta que mudou o mundo nos últimos dois séculos, mas agora enfrenta o desafio de se renovar”. De outro lado, “temos a agitação peculiar à ascensão da classe operária ao poder por caminhos bastante diferentes daqueles que haviam sido previstos pelo barbudo filósofo alemão: Karl Marx”.

 

 

Segundo Cristina e Leandro Konder, esse foi o quadro em que Carlos Nelson Coutinho empreendeu sua trajetória. (Para ler o artigo na íntegra acesse http://www.jb.com.br/pais/noticias/2012/09/21/morte-de-carlos-nelson-coutinho-deixa-legado/.)

 

 

 

Socialismo e democracia

 

 

 

A revista História & Classes se refere a Coutinho como um dos maiores pensadores brasileiros, “sempre renitente em defesa da tradição marxista”. A publicação ressalta as edições das obras de Gramsci realizadas pelo filósofo, em conjunto com Leandro Konder, na década de 1960, suas teses polêmicas sobre a formação econômico-social do Brasil e o significado da democracia, e conclui que “a perda de Carlos Nelson Coutinho nos deixa mais desamparados intelectualmente na resistência à tentativa de imposição neoliberal de um ‘pensamento único’ e contra os relativismos pós-estruturalistas que tanto seduzem os meios acadêmicos e intelectual”.

 

 

Para o Movimento em Defesa da Economia Nacional (Modecon), Coutinho foi intelectual combativo e intransigente defensor da democracia e do socialismo. “Sua morte é uma perda mais sentida ainda em razão do momento em que os rumos da Humanidade se encontram atingidos pelo crescimento de manifestações  de  barbárie a mutilar os espaços de democracia e liberdade conquistados pelas forças sociais progressistas”, escreveu o historiador Lincoln de Abreu Penna, presidente da entidade.

 

 

Coutinho nasceu no interior da Bahia, no município de Itabuna, em 28 de julho de 1943. Com a família mudou-se para Salvador quando ainda era um menino. Seu pai era advogado e elegeu-se três vezes deputado estadual pela antiga UDN. Ele formou-se em Filosofia na Universidade Federal da Bahia. “Um péssimo curso, e com meus 18 ou 19 anos sabia mais do que a maioria dos professores”, disse numa entrevista à revista Carlos Amigos.

 

 

Na entrevista, o filósofo revela como se tornou comunista, conforme trecho que reproduzimos a seguir:

— Eu me tomei comunista lendo o Manifesto Comunista que o meu pai tinha na biblioteca. Ele era um homem culto, tinha livros de poesia. Minha irmã, que é mais velha, disse que eu precisava ler o Manifesto Comunista. Foi um deslumbramento, declarou.

 

 

Nessa época, Coutinho era um adolescente perto de completar 14 anos. Resolveu cursar Direito porque era a faculdade onde se fazia política. “Eu estava interessado em fazer política. Me dei conta que uma maneira boa de fazer política era me tomando intelectual. Aos 17 anos entrei no Partido Comunista Brasileiro, que naquela época tinha presença”, disse Coutinho à Caros Amigos.

 

 

Florescimento político

 

 

Em 76, meses após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, por agentes da ditadura militar (1964-1985) nas dependências do DOI-Codi do 2º Exército, em São Paulo, Coutinho disse que teve o pressentimento de que ia ser preso. Exilou-se na Europa, onde pasou três anos e, segundo ele, aprendeu muita política.

 

 

Coutinho morou na Itália “na época do florescimento do eurocomunismo, que me marcou muito”. Nesse período, publicou o artigo “Democracia como valor universal”, seu primeiro texto, do qual tinha orgulho do “auê causado na esquerda brasileira” na época. O texto foi considerado reformista e revisionista, o que deixou o filósofo entusiasmado com a sua repercussão.

 

Quando retornou do exílio da Itália ingressou na UFRJ, onde lecionou por quase 30 anos. Em sua biografia como militante político consta que foi filiado a três partidos políticos: PCB, PT e PSOL. Sobre o PCB, onde ingressou aos 17 anos, disse que desfiliou-se em 1982, “quando me dei conta que era uma forma política que tinha se esgotado”. 

Carlos Nelson Coutinho era professor titular de Teoria Política na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS–UFRJ). É autor de vários livros, entre os quais: “Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político” (Civilização Brasileira, 3. ed., 2007), “Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo” (Cortez, 2. ed., 2008) e “O estruturalismo e a miséria da razão” (Expressão Popular, 2. ed., 2010). O intelectual e pensador marxista morreu no dia 20 de setembro, de câncer, em sua residência no Rio de Janeiro, aos 69 anos de idade.

Fonte: ABI