Televisão conectada exibindo anúncios diferentes para segmentos de audiência em uma sala contemporânea.
Mídia Eletrônica

Connected TV e publicidade endereçável: como a televisão fala com públicos diferentes

Durante décadas, os intervalos comerciais da televisão funcionaram pela lógica da transmissão coletiva: todos os lares que assistiam ao mesmo canal, na mesma praça e no mesmo horário recebiam os mesmos anúncios. A Connected TV introduziu uma possibilidade diferente. Em determinados ambientes, dois domicílios podem acompanhar o mesmo conteúdo e receber campanhas distintas.

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Isso não significa que a televisão passou a identificar individualmente cada espectador. A publicidade endereçável trabalha principalmente com grupos de audiência, domicílios, dispositivos, localização aproximada, contexto do conteúdo e sinais de comportamento permitidos. O objetivo é tornar a entrega mais relevante sem perder o impacto audiovisual da tela grande.

O avanço tem uma base concreta. Segundo a PNAD Contínua TIC 2024, do IBGE, 53,5% dos usuários brasileiros de internet acessaram a rede por meio da televisão em 2024. Em 2016, essa proporção era de apenas 11,3%.

Para os anunciantes, a Connected TV amplia as opções de segmentação e mensuração. Ao mesmo tempo, acrescenta desafios relacionados à privacidade, fragmentação de plataformas, controle de frequência, transparência do inventário e comparação com a audiência da televisão linear.

O que é Connected TV

Connected TV, frequentemente abreviada como CTV, é o aparelho de televisão utilizado para acessar conteúdos distribuídos pela internet.

Essa conexão pode ocorrer diretamente por uma smart TV ou por equipamentos externos, como dispositivos de streaming, videogames e conversores conectados. Portanto, toda smart TV com acesso à internet pode funcionar como CTV, mas uma televisão sem recursos inteligentes também pode tornar-se conectada por meio de outro aparelho.

O conceito descreve principalmente a tela e a forma de acesso. Não identifica, por si só, uma plataforma específica, um serviço de assinatura ou um modelo de publicidade.

Na CTV, o espectador pode assistir a filmes e séries sob demanda, transmissões ao vivo, aplicativos de emissoras, canais gratuitos financiados por anúncios e outros serviços de vídeo. Alguns desses ambientes não exibem publicidade, enquanto outros oferecem planos com anúncios ou são inteiramente sustentados por receita publicitária.

CTV, streaming e TV linear não são a mesma coisa

Os três conceitos aparecem frequentemente como sinônimos, mas representam aspectos diferentes do consumo de vídeo.

ConceitoO que representaExemplos de consumo
Connected TVA televisão conectada à internet, diretamente ou por equipamento externoAplicativos de vídeo, canais ao vivo pela internet e conteúdo sob demanda na tela da TV
StreamingA distribuição de áudio ou vídeo pela internetConteúdo assistido em televisão, celular, tablet ou computador
TV linearProgramação exibida em uma sequência definida pelo canalTelevisão aberta, canais por assinatura e canais lineares transmitidos pela internet

O streaming pode ser assistido em diferentes telas, não apenas na televisão. Da mesma forma, uma CTV também pode ser utilizada para assistir à televisão aberta tradicional.

A TV linear é caracterizada principalmente pela programação organizada por horário. O espectador acompanha o conteúdo que está sendo transmitido naquele momento. Já no vídeo sob demanda, escolhe quando iniciar o programa. Existem ainda canais gratuitos transmitidos pela internet que preservam a experiência linear, com uma grade contínua financiada por publicidade.

Para o planejamento de mídia, a distinção é importante porque audiência, inventário, forma de compra e indicadores podem mudar conforme o ambiente.

O que é publicidade endereçável na televisão

Publicidade endereçável é a capacidade de entregar anúncios diferentes a grupos distintos de audiência, mesmo quando esses grupos acessam o mesmo conteúdo ou intervalo.

Imagine dois domicílios da mesma cidade assistindo ao mesmo canal por um aplicativo. Um deles pode receber o anúncio de uma instituição de ensino; o outro, uma campanha de automóvel. A escolha pode considerar características gerais dos segmentos e os critérios definidos pelo anunciante.

A diferença em relação à televisão tradicional está na unidade de compra. Em uma veiculação linear convencional, o anúncio é associado ao programa, horário, emissora e praça. Na publicidade endereçável, a entrega também pode considerar sinais relacionados ao dispositivo ou ao domicílio.

Essa capacidade não elimina o planejamento por conteúdo. Uma marca pode combinar afinidade contextual — anunciar durante programação esportiva, por exemplo — com segmentação geográfica ou comportamental.

Como ocorre a segmentação em CTV

A segmentação depende dos recursos oferecidos pelo veículo, aplicativo, fabricante, plataforma de mídia e demais participantes da operação. Entre as possibilidades mais comuns estão:

  • Localização aproximada, como país, estado, região ou cidade;
  • Tipo e modelo geral do dispositivo;
  • Sistema operacional ou aplicativo utilizado;
  • Horário, dia da semana e contexto de exibição;
  • Gênero do conteúdo, como esporte, entretenimento ou notícias;
  • Perfil agregado do domicílio;
  • Interesses e comportamentos inferidos;
  • Audiências próprias do anunciante, quando houver integração permitida;
  • Grupos semelhantes aos clientes de uma marca;
  • Exclusão de pessoas ou domicílios já alcançados, quando tecnicamente possível.

Nem todo inventário oferece todas essas opções. Também é necessário verificar a escala disponível depois da aplicação dos filtros. Quanto mais estreita for a segmentação, menor poderá ser o número de impressões elegíveis.

Para empresas regionais, a geolocalização é especialmente relevante. Uma campanha pode limitar a entrega às cidades atendidas, às áreas próximas de lojas ou a regiões nas quais existe capacidade comercial. Entretanto, a precisão varia entre fornecedores e não deve ser presumida sem comprovação.

Quais dados podem ser empregados

Os dados utilizados podem ser organizados em quatro grupos.

Dados contextuais descrevem o ambiente de exibição, como aplicativo, canal, programa, gênero do conteúdo, horário e classificação indicativa. Eles permitem segmentar sem necessariamente identificar o comportamento anterior do usuário.

Dados da plataforma ou do veículo podem incluir histórico de consumo, preferências declaradas, tipo de assinatura e interação com conteúdos, conforme as permissões e políticas aplicáveis.

Dados próprios do anunciante, também chamados de first-party data, são obtidos diretamente em seus canais, como cadastros, programas de relacionamento, aplicativos, sites ou histórico de clientes. Seu uso publicitário depende de base legal, transparência, finalidade compatível, segurança e integração adequada.

Dados fornecidos por parceiros reúnem segmentos construídos por empresas especializadas. O anunciante precisa conhecer sua origem, metodologia, atualização, abrangência e conformidade. Comprar o nome de um segmento sem avaliar sua qualidade pode gerar uma sensação de precisão que não existe na entrega real.

A segmentação não autoriza o uso indiscriminado de informações pessoais. O Guia sobre legítimo interesse da ANPD reforça a necessidade de avaliar finalidade, necessidade, expectativas do titular, transparência e salvaguardas. Consentimento também não é a única base legal possível, nem pode ser presumido como autorização genérica para qualquer utilização futura.

Compra direta ou programática

A publicidade em CTV pode ser negociada diretamente com o veículo ou adquirida por sistemas programáticos. As duas modalidades podem coexistir em uma campanha.

CritérioCompra diretaCompra programática
NegociaçãoRealizada com emissora, plataforma ou representante comercialExecutada por plataformas de compra e venda de mídia
InventárioPacotes e posições previamente acordadosImpressões avaliadas e compradas de forma automatizada
Garantia de entregaPode haver volume, período e contexto reservadosDepende do tipo de acordo e da disponibilidade
SegmentaçãoLimitada às opções comerciais do fornecedorPode combinar diferentes critérios e fontes de dados
TransparênciaRelação mais direta com o proprietário do inventárioPode envolver vários intermediários
FlexibilidadeAlterações dependem da negociaçãoPermite otimizações durante a campanha
Uso indicadoConteúdos premium, patrocínios e necessidades específicasEscala, segmentação, testes e gestão de múltiplos inventários

Compra programática não significa necessariamente leilão aberto. Existem acordos privados, inventário reservado e compra programática garantida. Essas alternativas combinam automação com condições previamente negociadas.

A escolha deve considerar objetivo, orçamento, transparência, necessidade de segmentação, cobertura, custos tecnológicos e capacidade de otimização. Para anunciantes menores, uma proposta direta regional pode ser mais simples. Para campanhas com diversos fornecedores e públicos, a programática pode facilitar a gestão — desde que a cadeia de entrega seja conhecida.

Brand safety exige mais do que escolher uma plataforma conhecida

Brand safety procura impedir que o anúncio apareça em ambientes prejudiciais à reputação da marca. Brand suitability, ou adequação de marca, acrescenta uma avaliação mais específica: um conteúdo pode ser seguro para publicidade em geral, mas inadequado para determinado anunciante.

Na CTV, devem ser avaliados o aplicativo, o programa, a classificação do conteúdo, a origem do inventário e os intermediários envolvidos. Listas de aplicativos autorizados, acordos privados, classificação contextual e soluções independentes de verificação ajudam a reduzir riscos.

O Guia de Brand Suitability e Combate à Fraude do IAB Brasil alerta para problemas como aplicativos fraudulentos, identificação incorreta do inventário, tráfego gerado artificialmente e impressões registradas quando a televisão já está desligada.

Por isso, o anunciante deve perguntar:

  • Em quais aplicativos e conteúdos os anúncios poderão aparecer?
  • É possível receber relatório por plataforma ou aplicativo?
  • Quais mecanismos combatem tráfego inválido?
  • Existe verificação independente?
  • Como são tratados conteúdos sensíveis?
  • Quem está autorizado a comercializar o inventário?
  • O fornecedor informa todos os custos e intermediários envolvidos?

A tela grande e o índice elevado de conclusão não garantem, sozinhos, que uma impressão tenha sido legítima ou efetivamente observada.

Frequência precisa ser controlada entre plataformas

A frequência indica quantas vezes, em média, uma pessoa, dispositivo ou domicílio recebeu a campanha. Em CTV, ela ajuda a evitar tanto a exposição insuficiente quanto a repetição excessiva do mesmo anúncio.

O controle funciona melhor dentro de uma única plataforma. Quando a campanha passa por diferentes aplicativos, fabricantes, emissoras e sistemas de compra, a mesma residência pode ser reconhecida de formas distintas. Isso dificulta limitar a frequência de maneira unificada.

Também é necessário saber qual unidade está sendo contabilizada. Um identificador de aparelho não corresponde necessariamente a uma pessoa, pois a televisão costuma ser compartilhada. Da mesma forma, um domicílio pode ter mais de uma TV conectada.

A melhor prática é definir limites por fornecedor, acompanhar a distribuição das exposições e variar os criativos. Uma frequência média aparentemente adequada pode esconder dois extremos: muitos domicílios alcançados apenas uma vez e um grupo menor exposto repetidamente.

Como mensurar campanhas em Connected TV

A mensuração deve começar pelo objetivo da campanha. Entre os indicadores mais úteis estão:

  • Impressões entregues;
  • Alcance estimado;
  • Frequência média e distribuição da frequência;
  • Custo por mil impressões;
  • Taxa de conclusão do vídeo;
  • Tempo de exposição;
  • Alcance incremental sobre a televisão linear;
  • Visitas ao site ou aplicativo;
  • Buscas pela marca;
  • Visitas a lojas, quando a metodologia permitir;
  • Cadastros, vendas ou outras conversões;
  • Estudos de lembrança, consideração e intenção de compra.

A impressão informa que o anúncio foi entregue, não que uma pessoa prestou atenção. A conclusão indica que o vídeo chegou ao fim, mas também não comprova atenção ou resultado comercial.

Para avaliar alcance incremental, é preciso identificar quantas pessoas ou domicílios foram atingidos pela CTV sem terem sido alcançados pela campanha linear. Somar os alcances informados por diferentes plataformas tende a superestimar o público, pois pode contar o mesmo domicílio várias vezes.

A medição brasileira avança para uma visão multiplataforma. A solução Cross Platform View, por exemplo, combina medidores de audiência e identificação do consumo de vídeo na rede doméstica nas regiões metropolitanas pesquisadas. Ainda assim, cobertura geográfica, metodologia e disponibilidade dos dados precisam ser verificadas antes da comparação.

Limitações da CTV no mercado brasileiro

A Connected TV já tem relevância comercial, mas o mercado brasileiro ainda apresenta limitações importantes.

A primeira é a fragmentação. Emissoras, fabricantes, aplicativos, plataformas globais e empresas de tecnologia podem operar com identificadores, relatórios e regras diferentes. O próprio guia de formatos para CTV do IAB Brasil aponta a falta de padronização como uma barreira à escala e à eficiência.

A segunda é a dificuldade de deduplicar audiências. Nem sempre o anunciante consegue saber se uma mesma residência recebeu a campanha na TV linear, no aplicativo da emissora e em diferentes serviços de streaming.

Também existem diferenças de cobertura e conectividade entre regiões, disponibilidade desigual de inventário local, custos tecnológicos, exigências mínimas de investimento e falta de equipes especializadas em parte do mercado regional.

Outro desafio é a transparência. Relatórios podem apresentar muitas impressões e conclusões sem esclarecer aplicação, conteúdo, origem do inventário ou quantidade de intermediários. A publicidade programática precisa ser acompanhada por critérios de qualidade, e não apenas por menor custo.

Por fim, a mensuração de resultados comerciais exige planejamento. Nem toda exposição na televisão produzirá clique imediato. Códigos promocionais, páginas específicas, pesquisas, comparação entre regiões e integração com dados de vendas ajudam a avaliar o efeito da campanha sem atribuir todo o resultado ao último contato digital.

A televisão pode falar com públicos diferentes?

Sim. A Connected TV permite que campanhas diferentes sejam entregues a grupos distintos, combinando a força audiovisual da televisão com recursos de segmentação e mensuração do ambiente digital.

Mas a promessa precisa ser colocada em perspectiva. A segmentação nem sempre identifica indivíduos, a precisão varia entre fornecedores, o controle de frequência pode ficar fragmentado e a mensuração ainda não é completamente unificada.

O melhor planejamento não substitui automaticamente a televisão linear pela CTV. Ele define a contribuição de cada ambiente: a TV linear pode construir alcance e presença cultural; a Connected TV pode acrescentar segmentação, alcance incremental, flexibilidade e dados de entrega.

Quando público, inventário, privacidade, frequência e indicadores são definidos antes da compra, a publicidade endereçável deixa de ser apenas uma promessa tecnológica e passa a funcionar como ferramenta concreta de planejamento de mídia.